Conto #6: Dreams

Caminhávamos pelo beco escuro e úmido. Já havia passado da meia noite, mas eu não podia dizer que horas eram. A luz cheia ainda iluminava a noite, porém os altos prédios que nos cercavam escondiam sua luz, e tudo, além de pequenos reflexos em janelas e poças d’água, era preto e cinza.

Estava acompanhado por uma garota. Naquela escuridão, a única coisa que podia distinguir nela, era o rabo de cavalo comprido balançando e a touca da blusa abaixada sobre os ombros. E também podia ver que ela estava séria. Determinada.

Ela havia me contatado há algumas horas pedindo ajuda. Não sei porque ela achava que poderia confiar em alguém que ela nunca havia visto antes. Mas eu também havia concordado em entrar em um beco escuro com uma garota que acabara de conhecer. Estávamos juntos no mesmo barco aparentemente. Eu gosto de pensar que o meu tamanho poderia deixa-la mais segura, mas nos tempos que se seguem, isso pode não bastar.

Caminhávamos lado a lado. Ela era pouco mais de uma cabeça menor do que eu, talvez 1,60m ou algo próximo a isso. Eu não sabia onde estávamos indo. Ela seguia me guiando, confiante do caminho que devíamos seguir naquele beco escuro.

Quase no fim do caminho, ela virou à esquerda e seguiu para uma escada de metal que seguia verticalmente para uma plataforma no segundo andar e eu a segui pela escada. A escada rangia conforme subíamos e eu podia sentir a ferrugem áspera conforme me segurava nas barras de ferro.

No segundo andar da construção, o suporte de metal parecia ainda mais enferrujado que a escada e rangia muito mais, mas ela continuava determinada e o barulho da estrutura parecia não a amedrontar. Segui seu exemplo e continuei o percurso. Na plataforma, indo para cima, existia uma escada de grades que ligava nossa plataforma com a superior, esse padrão se seguia até onde os olhos conseguiam ver.

Continuamos nossa subida andar por andar entre grades faltando em degraus, barras soltas e pedaços da estrutura tão enferrujados que eu temia que tudo poderia desabar à qualquer momento. Porém continuávamos a subir.

Eu não contei quantos andares havíamos subido, mas agora eu acredito que subimos algo entre 15 e 20 andares. Minhas pernas já estavam cansadas com a subida, mas eu não ousaria tira-la da minha visão. Algo nela me chamava a atenção e já havia me envolvido demais nessa situação para virar as costas agora. Precisava ir até o fim. Agora que estávamos mais alto, a luz da lua iluminava nosso andar e só agora que reparei que usávamos roupas semelhantes. Ambos usávamos jaquetas de couro preto, o que era comum nessas noites frias e chuvosas dos últimos tempos. Estávamos também com calças jeans escuras, uma camiseta preta simples por baixo da jaqueta e botas escuras, que também se tornaram comuns nesse clima. Embora as roupas fossem parecidas, ela usava um conjunto feminino que combinava com se corpo pequeno.

Em cada uma das plataformas havia uma janela com pelo menos um metro de altura, porém todas elas estavam fechadas. Algumas lacradas com tabuas, algumas com cortinas e muitas apenas exibiam salas vazias, vidros quebrados espalhados no chão próximo as janelas e quantidades de poeira que matariam qualquer alérgico. Todas as janelas intercalavam com esse visual macabro. Todas com exceção de uma. E foi nessa janela aberta, intacta e perfeitamente limpa na qual ela entrou. Eu me agachei atrás dela e passei pela abertura para dentro do apartamento. A sala tinha chão de madeira e com exceção de uma mesinha de centro e uma cadeira, não havia nenhuma mobília. Em cima da mesinha queimava uma vela já pela metade e sentado na cadeira, havia uma mulher. A mulher era pequena envolta em panos e peles escuras, das quais você vê madames ricas usando em eventos, mas as que essa senhora possui faltaram há algumas lavagens e estavam todas gastas. Ela tinha o cabelo escuro comprido levemente ondulado que descia quase até a cintura. A semelhança entre a mulher das peles e minha acompanhante era visível. O formato do rosto, o mesmo formato dos olhos e os mesmos lábios rosados, porém a mulher deveria ser uns 10 anos mais velha do que ela.

Ficamos na sala em silencio nos olhando por mais tempo que poderia contar. O único som que se ouvia era de nossas respirações. Finalmente a mulher sorriu e eu pude ver nitidamente que seus dentes eram muito brancos e pontiagudos.

_ Você demorou criança – disse a mulher quebrando o silencio. Ninguém respondeu. Ela levantou a manga da sua blusa de peles e mostrou no antebraço esquerdo uma marca de um roxo claro. Quando ela se aproximou da vela para mostrar a marca, eu pude perceber que ela tinha a pela perturbadoramente cinza – você sabe o que é isso, não sabe?

A pergunta foi feita para a garota de rabo de cavalo que somente acenou a cabeça afirmativamente.

_ Então você sabe o que você é, não sabe? – a garota afirmou novamente – e então, porque você veio?

Silencio.

Eu aguardei enquanto elas somente se encaravam. Então veio a resposta.

_ Eu quero saber sobre tudo – sua voz estava embargada por lagrimas, embora eu não visse lagrimas no seu rosto, eu poderia jurar que ela estava chorando – o que isso significa e o que vai significar. Eu tenho alguma escolha?

Eu estava perdido. Que escolha? Ela era o que? Não estava me sentindo muito bem naquela situação, mas eu ainda não a queria deixar ali sozinha.

_ Você sabe que eu não posso discutir na frente dele – disse a mulher se levantando – livre-se dele e poderemos conversar mais a vontade.

A garota afirmou com a cabeça e se virou pra mim. Quando a olhei, vi os olhos marejados pelas lagrimas que se recusavam a descer.

_ Obrigada – disse ela e me abraçou. Como ela era pequena, ela cruzou os braços às minhas costas e apoiou o rosto no meu peito e eu retribuí o abraço. Quando ela se soltou de mim, ela apoiou uma não na minha nuca e disse – sinto muito – e foi quando eu senti a lamina gelada entrando na minha barriga.

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