Conto #5: A leoa e o lobo

Há dias Lenina caminhava de vila em vila seguindo os passos do assassino de seu pai. A cada novo nascer do sol, ela voltava a farejar o ar a sua procura. Suas botas já haviam sido consertadas várias vezes e sua comida já chegava ao fim mais um vez.

Esses eram dias muito difíceis para a jovem guerreira. Muitos amigos e amores se foram de sua vida num piscar de olhos e ela era jogada de prisão em prisão, de estrada em estrada e a cada novo dia, mais um grande evento surgia na sua frente pronto para arrancar sua cabeça. As promessas que ela havia feito, agora pesavam sobre seus ombros, lhe custando preciosos momentos de sanidade da garota.

Enquanto caminhava, em mais uma manha clara de outono, sua mente forçava em não divagar. Ela evitava se lembrar do passado sofrido e do futuro incerto a sua frente. Assim como muitos guerreiros, instantes antes da batalha, ela não ousava fazer planos que ela poderia não ser capaz de realizar.

Ela estava novamente seguindo uma trilha escondida pela vegetação alta que crescia por entre árvores de folhas desbotadas que já começavam a cair devido a eminente vinda do inverno e da neve. A cada novo passo, mais fechada ficava a vegetação em seu caminho e mais difícil ficava a caminhada. Suas esperanças em encontrar o vilão estavam muito baixas. Não era qualquer homem que ela caçava, mas sim um dos melhores caçadores que já haviam passado por essas terras. E isso trazia novas questões a ela. Por que ele não a atacava?

Essa brincadeira de gato e rato já começava a esgotar a paciência da garota, quando ela finalmente viu o que procurava. No chão, um rastro de pegadas recentes, não mais do que quatro horas de vantagem, e parecia estar carregando algum peso, o que definitivamente diminuiria a velocidade de sua caminhada.

Com um novo impeto de esperança crescendo no peito, Lenina apertou o passo e seguiu a trilha como um cão selvagem faminto correndo atrás de uma presa fácil.

Pouco mais de uma hora se passou nesse passo acelerado e a visão foi surpreendente. A trilha terminava numa clareira. No centro da clareira havia uma cabana de caça feita em madeira e barro. Era uma construção simples, mas comum para os povos simples que margeavam as grandes florestas e não tinham mão de obra necessária para construir grandes casas resistentes de alvenaria.

Ao lado da porta aberta da cabana, havia um cotoco de árvore ainda enraizado ao solo, que o tornava um banco bem resistente. Sentado nesse tronco de árvore estava Karam. O homem que Lenina procurava à mais tempo do que ela poderia manter o controle sobre.

Karam se encontrava usando sua clássica armadura de aço polido e sua ombreiras de cabeça de lobo. Seu rosto mantinha os traços de seriedade que sempre teve, mas agora era acompanhado por um olhar triste e uma espessa barba castanha com toques de branco, indicando que sua juventude já o havia abandonado. A sua frente, fincada no chão, estava sua espada de lamina negra que é tão conhecida por onde passa. Karam analisou a figura feminina com vestes masculinas parada ofegante a sua frente. Por alguns segundos nenhum dos dois disse palavra alguma. Em seguida, Karam olhou para acima da copa das árvores e disse sem olhar para a garota.

– Você cresceu. A ultima vez que a vi, ainda era uma criança. – Lenina respondeu com um silêncio frio e um olhar que mesclava ódio e desprezo. Vendo que nenhuma resposta viria da garota, Karam continuou – Ouvi dizer que meus atos foram mal interpretados.

– Você matou meu pai. – Vociferou Lenina entre dentes. – Você matou dezenas de inocentes e incontáveis guerreiros bons e honrados. E pra quê?

– Seu pai foi um acidente, ele não deverei ter tentado me parar daquela maneira. Ele era um irmão pra mim. – Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Karam enquanto ele revivia o combate em suas lembranças.

– Isso não te impediu de abrir a garganta dele. – Lenina sacou sua espada e andou para fora da trilha estreita e parou na clareira aberta encarando Karam nos olhos e disse. – Já perdi a conta do tempo em que estou te caçando. Vamos terminar logo com isso. Karam se levantou, tirou sua espada do chão e respondeu:

– Oito anos e sete meses, eu presumo. – Vendo a expressão de confusão no rosto da garota ele explicou. – O tempo que se passou desde a morte de seu pai. Oito anos, sete meses e doze dias. Venho contando cada dia desde então. Acredito que hoje seja seu aniversário, não? Dezessete? Fiquei impressionado quando ouvi dizer que você havia fugido para me procurar. Não me leve a mal, eu sabia que você faria, só não imaginei que fosse fazer antes mesmo do funeral. Isso foi um tanto quanto frio da sua parte.

Essa ultima alfinetada foi o gatilho necessário para que ela atacasse impetuosamente seu oponente. A diferença entre suas habilidades era visível. Lenina usou um golpe alto pela direita que Karam defendeu sem demonstrar qualquer tipo de preocupação. Ao ter seu golpe aparado, Lenina retrocedeu antes que sofresse o contra-ataque, mas Karam não pareceu interessado em contra-atacar, apenas defender. Lenina, com um movimento rápido, correu em direção do inimigo com a espada pronta para o ataque, porém no ultimo segundo, ela se jogou no chão e passou por debaixo da defesa do oponente, esfolando seu joelho na terra e a ponta de sua espada subiu de encontro com a virilha de Karam. Uma lufada de vento bateu contra o rosto da garota a empurrando para trás e arremessando Karam para cima e para longe do alcance da lâmina. Ele caiu poucos metros atrás do tronco em que estava sentado e no qual Lenina havia batido o joelho no seu ultimo movimento.

Karam riu.

– Eu não espera por essa. Veja bem, eu não queria ter que lutar com você, mas eu sei que a única maneira de acabar com essa raiva sem sentido, é com mais uma casualidade da guerra. Que assim seja.

Karam sem esperar o comentário raivoso que sairia da boca de Lenina, atacou a garota. Ele golpeou rápido, mais rápido do que ela imaginava, mas o golpe aterrissou pesado contra a lâmina dela. Mal as lâminas haviam se tocado, ele recolheu seu colpe e desferiu outro golpe e sem seguida mais outro e mais outro. Todos foram parados exigindo um grande esforço por parte dela. Com um rápido movimento de Karam, sua espada fez um corte leve no antebraço esquerdo de Lenina, mas foi um corte que tirou a concentração dela e permitiu que ele abrisse dois novos cortes nela. Um no pescoço, logo abaixo do maxilar e um terceiro mais profundo que raspou o osso da clavícula. Lenina viu seu fim chegando com o quarto golpe que definitivamente partiria sua cabeça ao meio. Num movimento desesperado, ela descarregou todo o poder contido nela através da espada e uma onda fogo brotou ao redor dela empurrando Karam para trás.

Novamente separados, os dois se olharam. Karam com o olhar surpreso, mas com um sorriso no rosto enquanto checava  os fiapos chamuscados em sua roupa e Lenina apenas ofegava tentando se concentrar em aprender os movimentos do oponente.

Karam avançou mais uma vez, dessa vez com o vento girando ao seu redor e criando uma cortina de poeria para prejudicar a visão de Lenina. Lenina já imaginando esse truque por parte dele, usando sua mão esquerda, ela soltou uma forte corrente de fogo que correu rente ao chão em direção as pernas de Karam que foi obrigado a parar o ataque no meio do caminho para se defender do fogo e deu a brecha que Lenina precisava. A espada, que agora brilhava como ferro em brasa, na mão da garota passou rasgando e queimando a pele do rosto de Karam embaixo do olho esquerdo. Karam levantou sua espada cegamente para forçar o recuo de Lenina, mas ela desviou o corpo para o lado, perdendo apenas alguns fios de cabelo no processo e atacou novamente com sua lâmina em brasa que entrou com um golpe violento no braço esquerdo de Karam.

Uma forte rajada de vento separou os dois pondo distancia estre os combatentes. Karam, com um olho vermelho e lacrimejante devido a queimadura próxima a ele e um braço que, apesar do fogo na espada, sangrava penosamente, ainda aparentava estar pronto para a batalha. Lenina sem esperar para que o oponente recuperasse o folego, atacou novamente, mas dessa vez, usou as duas mãos para criar uma parede de fogo entre ela e Karam, uma parede que avançava rapidamente contra ele. Karam usou a mão livre para criar mais um fluxo de ar para afastar o fogo do caminho, mas esse movimento o deixou vulnerável ao ataque surpresa de Lenina. A garota pulou através do fogo e do vento e cravou a espada flamejante na parte interna do antebraço esquerdo de Karam. A lámina atravessou pele, carne e osso e saiu do outro lado do braço dele, perfurando a marca do dragão que ele ainda carregava marcada a brasa. Um sinal de honra e dever para com seus companheiros de armas, assim como o pai de Lenina um dia foi.

– Você não merece essa marca – rosnou a garota cara a cara com Karam e num único movimento, ela torceu a espada dentro do braço dele. A pequena explosão gerada pelo movimento fez o braço do guerreiro abrir em dois e derrubar a espada longa ainda com a mão em sua bainha enquanto o membro destruído jorrava sangue no chão e na roupa de ambos. Vendo sua espada livre da carne, Lenina girou o braço num movimento rápido e a garganta de Karam foi aberta da mesma maneira que quase nove anos antes, ele havia feito com Izziel.

O corpo dele caiu para trás com olhos esbugalhados olhando o céu claro e ensolarado enquanto ele engasgava no próprio sangue, até que ele não se moveu mais.

O rosto de Lenina que estava contorcido numa mascara de ódio e nojo se acalmou, até que sua face não demonstrava nenhuma emoção. Parada, ela olhou a cena ao redor meio desnorteada e sua expressão passou para confusão. Subitamente ela se sentiu desconfortável com o colete de couro rasgado e sujo de sangue. Ela deixou sua espada cair no chão e tirou o colete justo ficando somente com uma camisa de linho velha e encardida que um dia já havia sido branca, mas agora tinha manchas das mais diversas cores. Ela caminhou até o tronco velho e se sentou. Tirou suas botas e reparou que ambas já haviam tantos furos, que não faria diferença ela andar descalça pela mata, além do cheiro já estar horrendo.

E lá ela ficou, sentada, olhando ao redor sem saber o que fazer, pois seu ultimo objetivo tinha chegado ao fim. E para ninguém em específico, ela disse:

– E agora?

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