Conto #4: A dama de vermelho

Impossivel dizer o que foi que o levou até aquela igreja, mas lá estava ele. Leon andava correndo por entre as casas incendiadas da cidade, se desviando de caminhos em que ele sabia que ainda haviam soldados armados que poderiam representar alguma resitência. A cota de malha emprestada era um pouco maior do que ele estava acostumado e a espada mais leve do que a dele. Devido a isso ele estava evitando o combate direto. É impossível prever o resultado de uma espada desbalançeada e uma armadura mais desconfortavel do que de costume.

Enquanto ele corria com seu grupo de reconhecimento, um som estranho lhe chamou a atenção. Era o som de um piano. Ele parou assustado e olhou para todos os lados procurando, como se esperasse encontrar um piano sentado na praça da cidade. Obviamente não havia nada alem de homens mortos e mulheres correndo com filhos no colo para algum local seguro.

Durante a guerra, as mulheres e as crianças são os que mais sofrem. Homens são mortos aos montes, mas as mulheres são estupradas na frente de seus filhos pequenos e feitas de escravos assim como suas crianças. Muitas dessas crianças que viam suas mães serem violentadas dessa maneira cresciam amarguradas para com a vida, desejando vingar sua família ou apenas matar inescrupulosamente. Poucas passavam por isso sem maiores danos. Mas antes do fim da batalha, eram poucos os que viravam as costas para seus inimigos armados para perseguir um rabo de saia, e nesse momento era que as mulheres tantavam se esconder.

Enquanto a cidade caia, Leon seguia inspecionando os homens, tentando evitar estupros ou assassinatos desnecessários, além de roubos e destruição demasiada das casas. Afinal, seria complicado governar um local em que se é totalmente odiado.

O som da musica o deixou inquito. Quem poderia estar tocando algo no meio de um caos desse?

Leon apontou um capitão que o acompanhava para liderar a exploração e se dirigiu até as portas fechadas da igreja. No topo da escadaria, com a espada em punho, ele empurrou a porta com a mão livre e ela abriu pesada e em silencio. O interior parecia aquem do que acontecia do lado de fora. O local estava na semi-escuridão de fim de tarde. As janelas altas e pequenas não iluminavam muito durante esse horário, e a fumaça dos predios em chama filtrava mais ainda os raios de sol.

Agora, dentro da construção, a musica estava perfeitamente audível. Acompanhando o som dedilhado do piano, uma voz feminina muito bela acompanhava a canção. Mas era uma canção triste que falava de dor e sofrimento, liberdade e amor. Em um dos cantos escuros da igreja, próximo ao altar, se encontrava uma javem de cabelos escuros e vestido vermelho sentada de costas para a porta. Leon andou até ela devagar, tentando não fazer som algum e tomando cuidado para não ser pego em uma armadilha.

A melodia seguia ecoando pelas paredes de pedra quando ele finalmente parou a poucos metros de distancia da mulher que com uma nota aguda, sua voz se estendeu longos segundos acompanhando o eco do piano e o silencio reinou. Ela se virou de frente para Leon vagarosamente e revelou o rosto palido cortado pelas lagrimas que desciam de seu rosto. Ela era lnda. Tinha a pele branca com olhos escuros como seus cabelos que desciam lisos até a metade de suas costas. E ela sorria. Era um sorriso sincero, puro e foi o que mais impressionou o jovem guerreiro que ficou boqueaberto observando a moça.

– Eu sempre me emociono com essa musica – disse ela secando as lagrimas na manga do seu vestido.

– Senhorita, a cidade está caindo, precismos ir – disse Leon saindo de seu torpor. Ela se levantou, agora de frente para ele e o abraçou. A surpresa foi tanta que ele derrubou sua espada no chão. Se ela fosse uma assassina, Leon teria uma faca crava entre suas costelas nesse exato momento, mas, no entanto, ela apenas deslizou o rosto próximo ao dele e o beijou no bochecha suja de sangue e poeira. Os labios dela encostaram suavemente no rosto. Lagrimas vieram aos olhos do guerreiro imediatamente.

– Não se preocupe com a cidade – disse ela quando afastou sua boca do rosto dele – não há mais nada que você possa fazer pra salvar as pessoas daqui. Agora elas estão por conta própria.

“Como ela fez isso?” pensou Leon “Eu tenho lagrimas nos olhos e nem ao menos sei se ela é real ou uma ilusão”. Ainda abraçado a ele, a garota apoio a cabeça no peito dele e disse:

– Não tem com o que se preocupar comigo também. Eu estou segura aqui. – e nisso se seguiu um silencio profundo entre os dois. Leon ficou ali, parado, com os braços pendendo ao lado do seu corpo enquanto uma completa estranha estava com os braços ao redor de seu corpo. Anos depois desse dia, ele ainda não sabia o que realmente havia acontecido naquela igreja. Enquanto parado com o rosto dela em seu peito, o perfume dela subiu até suas narinas e ele pode sentir o cheiro de flores. Era como estar num campo com as mais belas e cheirosas flores de toda a existencia. – eu te amo – A voz dela saiu suave dos labios avermelhados dela. Neste extato momento o coração de Leon disparou. Confuso e amedrontado de estar caindo num encantamento ele a afastou geltimente e a olhou nos olhos.

Os olhares dos dois se cruzaram e ele manteve o contato. Talvez anos se passaram assim, ele não saberia dizer. O que ele sabia dizer, é que ela não era uma mulher comum. Leon estava estarrecido e ela riu do embaraçamento que o jovem demonstrava. Ela acariciou o rosto dele gentilmente e disse:

– Se você não for, sua consciência vai te matar, não é? – ela o beijou novamente na face – Vá e fique em segurança. Tive uma otima ideia para uma musica agora. – e rindo ela se virou e voltou ao piano, o qual ela estudou as telcas por um momento e o som limpo recomeçou alto ecoando nas paredes de pedra.

Agora com a boca fechada mas ainda imcapaz de produzir som algum, ele abaixou e pegou sua espada caida a seu lado e se virou pra sair. Ele caminhou lentamente até a porta da igreja e parou nela. Com uma ultima olhada para trás, ele observou o contorno avermelhado de seu vestido contra o preto do piano e fechou a porta atras de si. E estava de volta ao caos.

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